segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Vale a pena LER DE NOVO 4

Cieja Campo Limpo discute cotidianamente a inclusão no Café Terapêutico Solidário

Iniciativa: Café Terapêutico Solidário
Pública ou privada: Pública
Descrição: 
Professora da escola com o Léo Aquila, ativista do movimento LGBTT, em discussão sobre sexualidade
Professora da escola com o Léo Aquila, ativista do movimento LGBTT, em discussão sobre sexualidade
O Café Terapêutico do CIEJA Campo Limpo, situado na Zona Sul de SP, é um encontro realizado semanalmente que reúne mães e pais dos estudantes e demais interessados em dialogar sobre o contexto no qual as pessoas com deficiência estão inseridas, e como o espaço da escola pode se tornar, de fato, inclusivo. Os temas variam de políticas e serviços públicos a processos de aprendizagem ou, então, sobre as dificuldades enfrentadas no do dia a dia dos estudantes.
A cada encontro, que dura em torno de duas horas, o grupo traz um tema para o debate, que é apresentado por meio de recursos de multimídia ou conta com a presença de algum palestrante convidado. A iniciativa acaba mobilizando toda a comunidade, já que os pais dos estudantes levam para o debate problemas que envolvem a vida dos filhos e, consequentemente da comunidade, como, por exemplo, a reivindicação por direitos sociais das pessoas com deficiência.
Histórico
Por ser uma escola destinada à Educação de Jovens e Adultos, o CIEJA Campo Limpo recebe também muitos estudantes especiais, entre eles jovens  e  adultos com alguma deficiência –  física, intelectual, auditiva e visual que, por conta da idade ou da deficiência, não se adaptaram a outras escolas regulares.
No início de implementação da escola, mães de estudantes com deficiência, logo viram no CIEJA um espaço que poderia acolher seus filhos.
Mesmo durante o período de aulas, essas mulheres permaneciam no espaço, até o final do período escolar diário. Nesse interim, trocavam experiências da vida cotidiana das famílias, enquanto faziam tricô, crochê, ou até mesmo pintavam as unhas.
O professor especializado em educação de pessoas com deficiência, Severino “Billy”, aproveitou o que era um encontro casual, para poder conhecer a vida de seus alunos e a relação com seus familiares e, junto com a diretora Êda Luiz começou, em 14 de março de 2008, a organizar os encontros semanais, para discutir com os pais e seus filhos as possibilidades de melhorias de atendimento dentro e fora do CIEJA, Os encontros chegam a reunir de 80 a 120 participantes.
A partir das demandas levantadas durante o Café, busca-se parcerias na própria comunidade, afim de se aprofundar em temas apresentados. De acordo com a coordenação do projeto, toda organização que faz uma palestra no espaço se torna parceira. Exemplos disso, são as parcerias estabelecidas com a Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro, com a UNASP (Universidade Adventista de São Paulo), Raia Coaching, Organização Mãe Especial (IMA), CEU Casa Blanca, CEU Capão Redondo e muitas outras. O grupo conta também com a parceria de advogados, jornalistas, sociólogos e outros. Não há uma forma de financiamento direto ou relação estreita com o Governo. Porém, os responsáveis pela ação acreditam que esse tipo de atividade pode se tornar referência para o poder público fazer disso um projeto pedagógico em outros espaços de aprendizagem.
Um dos grupos de discussão durante encontro
Um dos grupos de discussão durante encontro
Estratégias de Mobilização
São realizadas feiras, seminários e palestras com diversas temáticas, envolvendo pais, comunidade, parceiros e escola. Anualmente, é realizado o encontro de aniversário do Café Terapêutico no Teatro Oscarito, no CEU Casa Blanca, perto de onde a escola se localiza. Ao todo, já foram realizados cinco encontros com os temas e datas abaixo:

  • 29.05.09 – Sou especial porque sou feliz. Ser diferente é normal.
  • 30.04.10 – Mães que fazem a diferença.
  • 25.03.11 – Parceria, com você é alegria e sem você, nem aqui eu estaria.
  • 27.04.12 – Somos todos iguais na diferença.
  • 27.04.13 – A inclusão que temos e a inclusão que queremos .
Início e duração: O projeto teve início em 14 de março de 2008 e permanece em atividade até hoje.  
Local: Centro de Integrado de Educação de Jovens e Adultos (CIEJA), no Campo Limpo, bairro da Zona Sul de São Paulo.
Responsáveis: O professor da Sala de Apoio e Acompanhamento à Inclusão de alunos com deficiência intelectual (SAAI), Severino “Billy” Batista da Silva.
Envolvidos e parceiros: Diversas instituições recebem também doações arrecadadas nos encontros do Café Terapêutico que, desde 2012, passou a se chamar Café Terapêutico Solidário, por conta dessa iniciativa de parceria com a comunidade.
Como a atividade consta no Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola. Portanto, é mantida a partir do próprio financiamento da instituição de ensino.
Principais Resultados:
Com a atividade, a escola entende que a comunidade está mais mobilizada em torno de políticas públicas inclusivas, e pais se tornaram mais ativos no debate sobre a aprendizagem dos filhos. Com a vinda de especialistas, como dentistas, psicólogos e advogados, os pais conseguiram esclarecer algumas questões do cotidiano de seus filhos e famílias.
Da mesma forma, percebeu-se maior espaço de diálogo entre a escola e a comunidade. E, além desses ganhos, o professor Severino “Billy”, responsável pelo projeto, passou a participar frequentemente de fóruns de educação, feiras e eventos sobre deficiência e inclusão, do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência (CMPD), em eventos na Câmara Municipal dos Vereadores de SP, articulando a participação dos pais e alunos em espaços de interlocução da sociedade.
Materiais e Publicações:
Leia a reportagem Café Terapêutico reúne pais de estudantes com deficiência em escola de São Paulo, publicada no Portal Aprendiz sobre a experiência.
A iniciativa também recebeu os seguintes prêmios:
- 2º lugar no Prêmio Construindo a Nação – Instituto da Cidadania – 2012- categoria EJA no estado de SP (neste prêmio foram escolhidos os 12 melhores projetos de cidadania do Estado de São Paulo);
- 12º lugar – Prêmio Milton Santos 2013;
- O professor Billy está concorrendo ao prêmio Paulo Freire 2013, Professor Nora 10 – 2013, Tecnologia Social do Banco do Brasil 2013.
Contatos
Telefone: 5816.3701 / 5816.2907
E-mail: ciejacampolimpo@prefeitura.sp.gov.br

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Severino Batista da Silva - Professor Billy

09/02/2013 | São Paulo - SP | Comente!

O convite tem como proposta receber a família dentro do âmbito escolar, esclarecer o processo de aprendizagem de pessoas com deficiência, colocá-la como parceira dentro do processo de aquisição de conhecimentos, respeitar suas deficiências no relacionamento com a deficiência do seu filho, respeitar o outro dentro de sua limitação intelectual – falo dos pais com relação à falta de informação acadêmica sobre a deficiência de seu filho e assim, trata-o de forma infantilizada e acredita que tudo tem um “quê” de divino -. 
O projeto teve início oficialmente no dia 14/03/2008 com um grupo de 11 pessoas.
Ao trabalhar com os jovens e adultos com deficiência matriculados no CIEJA, que hoje somam 285 (DV, DM, DA, DI, Altistas, Síndrome de Down, etc.), constatei que, nosso olhar para a inclusão era diferente do olhar da família e até mesmo dos outros alunos da escola.
Observei mais atentamente a postura de alguns pais, a maneira como se reportavam aos filhos, a forma com que falavam sobre eles e sobre suas deficiências, e principalmente a falta de conhecimento dos Direitos Humanos de seus filhos enquanto cidadãos.
Por outro lado, sentia necessidade de conhecer um pouco sobre o aluno fora do contexto escolar, em outros ambientes, saber os locais que freqüentavam, o que faziam, do que gostavam, como se relacionavam com familiares e pessoas em outros espaços pois, essas informações poderiam nortear o trabalho pedagógico com os alunos em sala .
Conversei com a diretora e falei sobre o que me inquietava e esta me desafiou a realizar um trabalho com os pais.
Pensei no nome e decidi por Café Terapêutico. Café por conta da programação do Café Filosófico da TV Cultura que eu sempre assisto e, Terapêutico pelo fato de na época cursar pós em Arteterapia.
Não tinha claro como seria o formato dos encontros, mas sabia que era fundamental que os filhos participassem juntos com seus pais pois, embora com alguma deficiência, era necessário que eles aprendessem sobre seus direitos fundamentais de falar, ser ouvido, decidir, escolher, opinar, etc. 
A ação teve início a partir das observações que fizemos dos familiares atendidos no CIEJA Campo Limpo desde a entrevista para a matrícula de seus filhos, relatos trazidos aos encontros semanais no Café Terapêutico, busca de atendimentos para seus filhos, as histórias de vida de cada um – que muitas vezes são bem parecidas. 
Pesquisamos entre os pais se já tinham participado de algum grupo em outras instituições onde seus filhos eram atendidos. As respostas foram bem variadas como:
  • Sim, para fazer atividades manuais e produzir materiais para ser vendido no bazar da instituição.
  • Não, nunca participei de nada.
  • Já, mas nunca junto com meu filho.
  • Sim mas nunca me senti a vontade para falar.
  • Não pois as outras mães eram metidas, etc. .
A partir das respostas obtidas traçamos um formato de trabalho que poderia ser desenvolvido junto ao grupo e que propiciasse aos participantes a criação de vínculos afetivos entre eles.
Era fundamental que esses pais/familiares se conhecessem, formassem uma rede de solidariedade e amizade e principalmente descobrissem os potenciais de seus filhos
Nossos objetivos foram surgindo ao longo dos encontros e hoje são:
  • Propagar a troca onde as diferenças em virtude das deficiências sejam minimizadas e esclarecidas;
  • Difundir a rede solidária entre pais, filhos, amigos e profissionais;
  • Propiciar discussão e reflexão de temas sobre cidadania, identidade, solidariedade, saúde, afetividade, educação inclusiva, escola de todos e para todos;
  • Discutir a relação entre diferenças x deficiências para quebra de preconceitos;
  • Divulgar e esclarecer os processos de aprendizagem e práticas educativas do CIEJA Campo Limpo;
  • Multiplicar formação e circulação de informações.
As ações sempre foram pensadas para que os participantes falassem sobre suas angústias, conquistas, anseios e contribuíssem com o grupo por meio de suas histórias de vida para que os outros pais também pudessem se mobilizar na busca de uma melhor condição para seus filhos e que estes realmente estivessem incluídos na sociedade. 
A utilização de pequenos textos para sensibilização e discussão, apresentação de Power point com textos e imagens, pequenos vídeos, imagens e dinâmicas são valiosos instrumentos utilizados nos encontros que acontecem todas s sexta feira no horário das 9h30 às 11h00 da manhã.
Cada participante colabora com o nosso café trazendo um bolo, doce, salgado, refrigerante, café, etc.
Ao longo dos encontros muitos temas foram surgindo e posteriormente foram abordados pelo professor Billy ou outro profissional convidado. 
Os encontros sempre possuem um título e, sempre que possível é colocado junto a ele uma imagem, pois facilita o entendimento dos jovens com deficiência intelectual . 
Para os participantes com deficiência visual sempre temos o cuidado de fazer a audiodescrição de tudo o que mostramos. 
Dentre as atividades que são bem variadas, realizamos Café Musical onde fazemos a análise de letras de músicas e as histórias contidas, dentro de um contexto que seja pertinente à realidade do grupo e que possa contribuir para a sensibilização / formação do mesmo;
Café Sarau onde pais e filhos preparam apresentações variadas para os participantes: músicas, leitura de textos, poesias - muitas de autoria própria – e apresentações de danças;
Café Terapêutico Solidário Animal – onde fizemos a multiplicação da formação recebida sobre posse responsável e proteção animal;
Cine Café Terapêutico onde exibimos filmes que tratam de questões de inclusão, deficiências, direitos humanos, etc.. 
Com o grupo também decidimos o que vamos trabalhar nos encontros anuais e quem será o público convidado.
Já realizamos 4 encontros de aniversários:
1º aniversário – 29.05.09 “Sou especial porque sou feliz. Ser diferente é normal. Eu sou”.
2º aniversário - 30.04.10 “Mães que fazem a diferença”.
3º aniversário – 25.03.11 “Parceria: Com você tudo é alegria e sem você, nem aqui eu estaria”.
4º aniversário - 27.04.12 “Somos todos iguais na diferença”.
Neste ano de 2013 comemoraremos o 5º Aniversário do Café Terapêutico e o tema será “A inclusão que temos e a inclusão que queremos” no dia 27/04/13 – sábado no horário das 14h00 às 17h00 no Teatro Oscarito – Céu Casa Blanca. 
Iniciamos também a criação de um documentário com o mesmo tema “A inclusão que temos e a inclusão que queremos” onde participarão pais, alunos, profissionais de diversas áreas, autoridades e comunidade em geral.
Desde o ano de 2011 os encontros do Café Terapêutico passaram a ter o nome de Café Terapêutico Solidário pois, a cada encontro realizado arrecadamos produtos previamente estabelecidos, que são doados para instituições próximas do CIEJA.
Já arrecadamos papel higiênico, sabonetes, creme dental, jornais e leite integral.
Já ajudamos as instituições:
Raio de Sol – Associação Espírita que faz entrega de cestas básicas para a comunidade do Parque Santo Antonio;
Instituição Resplendor – que atende adultos com HIV.
CCZ – Centro de Controle de Zoonoses de Embu das Artes

Temos um cuidado especial com a divulgação e fazemos uso de diferentes mecanismos para que todos saibam dos encontros.
Produzimos bilhetes que são entregues – colados no caderno – para os alunos com deficiência.
Fixamos folder do encontro nos murais de avisos do CIEJA.
Divulgamos no BLOG do CIEJA (www.blogdociejacampolimpo.blogspot.comSite externo.) e do Café Terapêutico (www.projetocafeterapeutico.blogspot.comSite externo.) e facebook. 
Realizamos encontros de avaliação dos trabalhos no formato de pesquisas de satisfação entre participantes dos encontros, reuniões com a equipe do Café Terapêutico, reunião com a direção do CIEJA na busca de soluções e avaliação de ações realizadas.
Definimos que o Café Terapêutico seja um sucesso pois a participação das pessoas tem crescido em cada encontro, começamos com 11 pessoas – hoje temos uma média de 40 a 50 pessoas a cada encontro . 
Outro fator de observação é a realização ininterrupta dos trabalhos desde 14.03.2008.
Contamos com registros escritos e relatos audiovisuais onde os participantes falam da importância de participarem do grupo e demonstram muito prazer em poderem participar juntos com seus filhos de todos os trabalhos realizados em nossos encontros.
A satisfação dos pais ao ouvirem seus filhos – cada um à seu modo – se colocando frente às questões trazidas aos grupos, causam momentos de muita emoção. 
Possibilitar que jovens e adultos com deficiência sejam respeitados e tratados como jovens e adultos, e não como crianças, não tem preço pois valorizamos a eficiência do ser humano e não sua deficiência . 
Os trabalhos do Café Terapêutico são amplamente divulgados com a intenção de que escolas e outras instituições que trabalham com pessoas com deficiência, tenham esse olhar diferenciado para as famílias dessas pessoas.
O projeto Café Terapêutico já foi apresentado e divulgado em:
  • Encontros de formação de professores;
  • Reuniões de professores de SAAI – Sala de Apoio e Acompanhamento à Inclusão da SME/DOT – Secretaria Municipal de Educação/ Diretoria de Orientação Técnica e CEFAI – Centro de Formação e Apoio à Inclusão da DRE Campo Limpo;
  • Seminários promovidos pela Secretaria Municipal de Educação;
  • Revista: publicação do artigo – “Vamos Tomar Um Café Terapêutico” Ciranda da Inclusão – dez/2010;
  • Site: Entrevista - Portal Mara Gabrilli – 12.04.10 “Professor Billy – O Terapeuta da Inclusão” (http://www.maragabrilli.com.br/personagem-da-semana/255-entrevista-com-prof-billy-o-terapeuta-da-inclusao.htmlSite externo.);
  • Jornal: artigo publicado no Jornal da APROFEM edição Janeiro/fevereiro de 2011 pág. 4” Vamos Tomar um Café Terapêutico”.
  • Feiras e eventos como UNIDIVERSIDADES, na cidade de São Paulo e em cidades do interior, como por exemplo em Sorocaba quando da realização de encontro de educação organizado pelo Instituto Paradigma .
  • BLOGS: www.blogdociejacampolimpo.blogspot.com e www.projetocafeterapeutico.blogspot.com.
  • Prêmios: Eu amo Educar: Finalista da Região Sudeste fevereiro de 2012
  • Prêmio: Construindo a Nação 2012 – Categoria EJA – 2º Lugar no Estado de São Paulo – premiação será dia 11/03/ 13 na Sala São Paulo.
  • Recentemente recebemos convite para apresentar o trabalho para 
  • Educadores de Angola onde provavelmente estaremos auxiliando na organização de uma escola particular que quer trabalhar com educação especial dentro de uma perspectiva de educação inclusiva para todos. 
O sucesso de nossos trabalhos acontece com a ajuda de parceiros como familiares dos alunos com deficiência matriculados no CIEJA Campo Limpo, alunos, parceiros, comunidade, professores e profissionais de diversas áreas (saúde, educação, psicologia, assistência social, sociologia, pedagogia, etc.) professores e profissionais de outras unidades escolares da cidade de São Paulo e Sorocaba que participaram dos encontros de formação com o professor Billy – Severino Batista Silva – idealizador e articulador do projeto.

Contato: severino.billy@ig.com.br

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Êda Luiz: o poder do conhecimento para todos

Aos 64 anos, ela é diretora do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja), em São Paulo, e transformou o lugar por meio de uma metodologia diferente de aulas

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"Conhecimento te dá poder", diz Êda Luiz, numa conversa realizada dentro de uma sala onde a todo momento pessoas batiam na porta e já entravam. Sua sala é um cômodo que não impede a entrada de ninguém, a porta está sempre aberta. No meio da conversa, aparece uma professora: "Oi, dona Êda, na escola em que trabalho, experimentamos uma das ideias que são desenvolvidas aqui, deu muito certo". As pessoas falam com dona Êda como se ela fosse não apenas a diretora, mas também uma grande mãe, que cumprimenta com um abraço apertado.

O Cieja é um projeto da prefeitura, uma escola voltada para jovens e adultos que querem voltar aos estudos. Dona Êda transformou o Cieja do Campo Limpo em um lugar ainda mais especial, em que o aprendizado é percebido e experimentado dentro e fora das aulas. Há mulheres que até hoje frequentam as aulas sem contar aos maridos, porque sabem que, caso eles descubram, talvez elas sejam obrigadas a voltar para casa emtempo integral. A evasão de estudantes ainda é um problema, mas dona Êda enfatiza que muitos voltam depois de deixar a escola - saem, geralmente, porque encontram empregos e não por não gostar da proposta.A escola recebe diariamente mais de 1500 estudantes, em três turnos - dona Êda só desgruda o pé do Cieja às 22h30, quando fecha os portões que abrem às 7h. Ao longo do dia, as grades ficam abertas. É a afirmação da escola como espaço público, um lugar em que a troca de experiências é ininterrupta. E as portas também estão abertas para uma metodologia diferente: as aulas seguem um ritmo cíclico, ou seja, a cada mês os alunos emergem num grupo de matérias diferentes. Em um determinado mês, aprendem matemática e artes - dois professores, um de cada matéria, entram ao mesmo tempo na sala de aula. Em outro mês, por exemplo, desbravam ciências e filosofia juntas.

Quando você anda pela escola, as pessoas deixam claro: dona Êda é a essência de tudo. Foi ela quem disse aos assaltantes, que apareceram pela escola há alguns anos: "Se quiserem fazer alguma coisa com alguém, façam comigo". É ela quem conversa com os alunos quando querem desabafar histórias que não contam para mais ninguém. O poder de dona Êda se enraíza na sua paixão pelas pessoas. Ela ama gente. E por isso cercou-se de pessoas que acreditam na força dos sonhos quando transformados em realidade.
Ela nem lembra como surgiu a vontade de ser professora. Desde criança dava aulas para os irmãos, primos e bonecas. Sua família veio da Itália, ela nasceu em São Paulo, morava numa chácara em frente à escola em que estudava. Lá, ela encontrou uma professora que a marcou - de maneira nada construtiva, aliás. A mestra bateu na jovem aluna com um estojo, numa reprimenda à sua dificuldade de pronunciar a tal palavra "estojo". Aos 15 anos, Êda começou a lecionar enquanto terminava o antigo magistério. Em seguida, foi trabalhar em outras instituições de ensino, sempre à procura de novas experiências. "Não conseguiria viver uma vida em que todos os dias eu faço a mesma coisa", conta. "Essa história de que sempre foi feito assim, como vou mudar, para que mudar? - não dá mais. Mudar faz parte da vida", finaliza.

Vale a pena LER DE NOVO.


Por Tory Oliveira
Sentadas em mesas coletivas, mulheres discutem em grupo com o professor sobre os malefícios do sal. Na sala ao lado, alunos adultos surdos trabalham em Libras com a professora. Atrás de outra porta, senhoras dão os primeiros passos no mundo das letras com a ajuda de outra educadora. No pátio, misturada com jovens de boné e fone de ouvido, Maria José, de 91 anos, conta para a diretora, Eda Luiz, que ela foi a única mulher a comparecer na aula de hoje. “Só veio homem.” “Deve ser por causa da chuva”, sugere a diretora. “Não sei por que elas não vieram, só sei de mim. Eu não falto”, replica dona Maria José, com uma risada.

Adolescentes que abandonaram o ensino regular, menores cumprindo medida socioeducativa na Fundação Casa, alunos com necessidades especiais, senhoras que estudam escondidas do marido e trabalhadores que desejam completar o Ensino Fundamental – todos são bem-vindos na ampla casa verde equipada com rampas e decorada por cartazes e plantas cuidadas pelos próprios alunos no Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) Campo Limpo.

Marcado pelo acolhimento e pela diversidade o Cieja Campo Limpo é um exemplo bem-sucedido de qualidade em uma modalidade historicamente relegada ao segundo plano das políticas públicas educacionais.  Localizado no coração do Capão Redondo, bairro periférico de São Paulo conhecido por seus altos índices de violência e problemas sociais, a escola recebe 1,2 mil alunos, dos quais 282 são de inclusão. “Eu trabalho com os excluídos”, explica Eda Luiz, de 65 anos, que é pedagoga e especialista em Educação de Jovens e Adultos (EJA).

O esforço de Eda e seus alunos está expresso na própria existência da unidade. Em 2007, os Centros Integrados de Educação de Jovens e Adultos correram o risco de fechar as portas em São Paulo e as turmas, de serem transferidas para o horário noturno em turmas regulares. Diante da notícia, os alunos e a comunidade se mobilizaram, aproveitando a visita do então secretário de Educação ao bairro. O ato resultou na tarefa de estruturar, ao lado dos gestores das demais unidades existentes na cidade, um plano político pedagógico para as escolas. As portas ficaram abertas e hoje há 13 Ciejas em São Paulo.

Apesar do final feliz em Campo Limpo, a modalidade de EJA é ainda relegada. Resultados preliminares do Censo Escolar 2013, divulgados pelo Ministério da Educação, mostram redução de 20% nas matrículas de educação de jovens e adultos na rede pública em comparação com 2012. Atualmente, 3.102.816 estudantes jovens e adultos estão matriculados em  todo o Brasil. Desse total, 69,1% estão no Ensino Fundamental e 30,9% no Médio.  O número de alunos inscritos na modalidade caiu 37,7% desde 2007.

Além disso, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2012, publicados recentemente, chamaram a atenção ao revelar que a proporção de pessoas com 15 anos ou mais que não sabem ler nem escrever passou de 8,6%, em 2011, para 8,7%, em 2012. Ainda é cedo para afirmar que o analfabetismo parou de diminuir no País, mas a flutuação estatística reacendeu o debate sobre o analfabetismo de jovens e adultos no Brasil. Hoje, 13,2 milhões de brasileiros com mais de 15 anos são analfabetos. Mais da metade (54%) desse total está nos estados do Nordeste, um contingente de 7,1 milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, a região foi a que apresentou a maior queda na taxa de analfabetismo nos últimos oito anos, de 5,1 pontos porcentuais (foi de 22,5%, em 2004, para 17,4%, em 2012).

“Vamos lembrar que o analfabetismo é um produto de toda a sociedade que tem um sistema econômico injusto”, pondera Sérgio Antônio da Silva Leite, professor da Faculdade de Educação da Unicamp. “Se o fracasso escolar ainda é alto, haverá uma fonte que alimentará o índice de analfabetismo dos sujeitos adultos. É ilusório achar que basta o tempo passar e os adultos analfabetos morrerem”.

A pouca prioridade de investimento dada pelos estados e municípios para a modalidade, a falta de flexibilidade de horários, o baixo número de professores especializados e o engessamento do modelo escolar são alguns dos fatores que contribuem para a falta de atratividade da EJA. “A educação de jovens e adultos continua sem projeto próprio, sem espaço adequado e sem uma metodologia adequada”, avalia Roberto Catelli, coordenador da unidade da EJA da Ação Educativa.

“Não existem estudos empíricos, mas as hipóteses para a redução das vagas são de que os recursos são escassos e a cultura da alfabetização na idade adulta não tem sido cultivada”, opina Maria Clara di Pierro, professora da Faculdade de Educação da USP. Na análise de Maria Clara, existe uma combinação entre falta de investimento e, ao mesmo tempo, de cobrança. Justamente por se tratar das camadas mais excluídas da população, o grupo social que seria favorecido pelo aumento de vagas e investimento tem dificuldades de se expressar e colocar suas demandas na agenda das políticas públicas.

A falta de especialização dos profissionais que atuam na área também é um entrave. “No caso das campanhas de alfabetização de adultos é dramático, há uma improvisação de professores sem preparo, baseada no pressuposto de que qualquer um pode alfabetizar”, conta Maria Clara. Mesmo quando há qualificação, não há especialização para trabalhar com adultos e jovens. Não existe uma habilitação específica nos cursos de Pedagogia e a EJA ainda é marginal nos cursos de formação de professores. “Se o aluno vai para uma escola que é pouco relevante para a sua vida, é mais fácil acontecer a evasão.”
No entanto, Maria Clara di Pierro explica que é preciso valorizar os progressos feitos na última década. Para ela, a EJA saiu de uma posição de desprestígio na década de 1990 para uma posição ainda secundária, mas com medidas mais consistentes, a partir de 2002. “Ela passou a fazer parte do Fundeb e a receber livros didáticos, merenda e transporte escolar”, conta. A conquista de espaço nas políticas estruturantes da educação básica, porém, não foi incentivo suficiente para uma real expansão da oferta de vagas na modalidade. O problema seria que o governo federal é apenas um indutor das políticas públicas educacionais – executadas pelos estados e municípios muitas vezes sem recursos suficientes para incluir também a educação de jovens e adultos.

Além disso, a expansão precisaria ser feita com mais diversidade de modelos, considerando a heterogeneidade do público-alvo. “Hoje há predominantemente um modelo escolar muito rígido, uma reprodução do modelo de educação escolar utilizado com as crianças”, explica Maria Clara. “O aluno trabalha, em geral possui uma baixa-estima educacional. Para ele, retomar os estudos é um desafio complexo, que exige da escola investimento, criatividade e mobilização”, argumenta Roberto Catelli. “O importante é construir uma diversidade de ofertas, apenas um único modelo não vai resolver.”

Ao contrário da maioria das turmas de EJA, instaladas em escolas regulares apenas no período noturno, o Cieja Campo Limpo funciona das 7 às 22h30, em seis turnos e com horários flexíveis. Eda Luiz justifica que não faria sentido reproduzir o modelo de escola tradicional na Educação de Jovens e Adultos. Assim, nas salas de aula os alunos sentam-se em grupos, e não em carteiras enfileiradas, o estudante tem liberdade para escolher o melhor entre os horários disponíveis e o diário de classe tradicional foi substituído pelo “passaporte do aluno”, no qual o professor anota as aulas em que o aluno compareceu. Além disso, as aulas são divididas em áreas do conhecimento, nas quais os estudantes se detêm durante 25 dias. Um projeto semestral de interferência na comunidade e um tema comum orientam os trabalhos de todos os alunos e dos 36 professores, funcionários da prefeitura. Este semestre, o tema é “O que é a política?”

Dentro dos muros do Campo Limpo, o maior entrave ainda é fazer com que as pessoas acreditem que é possível produzir uma educação de qualidade, à altura do público de jovens e adultos que recebe. “Cada menino aqui tem uma história de superação”, declara Eda, antes de chamar Anderson. Vestido com uma camisa social branca, brinco na orelha e aparelho nos dentes, a figura de Anderson Ailton Odorico, de 23 anos, em nada lembra a do jovem viciado em crack, pesando 38 quilos que um dia chegou à escola pedindo ajuda. A despeito de todas as dificuldades, Anderson alfabetizou-se em dois meses, com a ajuda das professoras e incentivado por um celular dado pela diretora. “Ele queria ler as mensagens de texto”, lembra Eda. Hoje, livre da droga, Anderson trabalha na escola como ajudante-geral e cuida dos três irmãos mais novos. “É bom quando alguém acredita em você”, fala, exibindo o smartphone novo em que ele hoje lê, sozinho, as mensagens dos amigos.

Publicado na edição 81, de novembro de 2013